Muito do que era oculto veio à tona, tudo o que estava escondido se escancara aos nossos olhos: a cidade nua não é nenhuma top model.
Depois de resistir ao descrédito inicial e de enfrentar os interesses de diversos setores atingidos, o Projeto Cidade Limpa é, para o bem ou para o mal, um sucesso inegável. Caíram os outdoors, os luminosos e as placas de fachadas e São Paulo pôde ser desvendada. Podemos sentir a cidade respirar, conhecer a cara dela, mas, em muitos casos, como um efeito inesperado desse desmascaramento, nos deparamos com uma nova realidade. Muito do que era oculto veio à tona, tudo o que estava escondido se escancara aos nossos olhos: a cidade nua não é nenhuma top model. Nossas ruas, nossos prédios, nossas casas, nossas escolas são um pasticchio. Nossa arquitetura, decididamente, deixa a desejar. Sinal de que a faxina que começou com o Cidade Limpa deve continuar, sobretudo, preenchendo os vazios que sobraram nas empenas dos edifícios, nos espaços que parecem abandonados.
Aliada a esse Projeto, outra medida que também precisa ter continuidade é novo piso flexível dos calçamentos, adotado em algumas ruas de São Paulo. Elas representam um grande avanço, pois vão nos poupar da terrível visão dos inúmeros remendos que vão se espalhando pelos nossos caminhos.
Aproveitando iniciativas como essas, quem sabe esse não seja o momento de transformar o modo como nos relacionamos com a cidade e mudar aquilo que nela nos incomoda?
Comecemos com a fiação aérea que ficou
ainda mais visível com a retirada das placas. São Paulo não tem praia, raramente temos um horizonte, merecemos o respeito de ter nossa visão mais próxima desprovida da poluição da fiação aérea.
É mais do que hora de nos apossarmos de nossos espaços. Vivemos numa cidade que tem um clima espetacular, é lamentável que não nos sintamos confortáveis para fazer de nossas ruas o grande ponto de encontro dos paulistanos. E não é nada que exija investimentos mirabolantes nem verbas astronômicas.
Não devemos nos iludir achando que encontraremos espaços abertos disponíveis na cidade, mas aqui e ali, perto de casa, do trabalho, pode-se fazer a diferença. Bastaria adotar soluções simples, criando pequenas praças,
alargando as calçadas, dotando de equipamentos urbanos charmosos e confortáveis. Fazer tudo isso em áreas sem uso, um pequeno terreno, um fundo,
um recuo pode ser transformado em um jardim, com um balanço, uma horta, um banco para sentar à noite, ver as estrelas e jogar conversa fora. Vamos abrir espaço para árvores frondosas que possam coroar o espaço construído.
Para sonhos mais altos, espaços mais
amplos: um anfiteatro para a
apresentação de bandas, de mímicos, um workshop. Nossa cidade tem o privilégio de
reunir gente talentosa, criativa e responsável que carece de espaços para
compartilhar sua arte e seu conhecimento.
Podemos até pensar numa Virada Cultural que acontecesse em toda a cidade, 365 dias por ano.
E já que vamos limpar ruas, prédios, praças e passeios, deveríamos nos esforçar para mantê-los assim. Exigir lixeiras e equjpamentos urbanos de qualidade. Conscientizar as pessoas a não jogarem o lixo das janelas de seus carro, fazê-las respeitar os espaços de circulação e ajudar na conservação das áreas públicas. Uma campanha para mudar comportamentos, para aprendermos a fazer da cidade não o quintal abandonado, mas a nossa sala de bem-estar.
Vamos aproveitar essa faxina geral na Cidade para incentivar também a um banho de cidadania na nossa população.