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Materiais & Aplicação

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Título: O uso racional da madeira em projetos arquitetônicos
 Linha-fina: Arquitetos e profissionais da construção civil nacional devem se ater à importância da especificação consciente da madeira, exigindo seu atestado de origem com respeito aos recursos naturais do planeta. Afinal, aproximadamente, 75% da madeira explorada no Brasil vem clandestinamente da Amazônia.

Crédito: Deyvis Drusian
           
            A madeira é um dos materiais mais utilizados por arquitetos na criação de ambientes aconchegantes e acolhedores, tanto em espaços comerciais, empresariais, promocionais, como residenciais. Com o aumento da demanda mercadológica pelo uso do material, e a extinção de várias espécies, profissionais de arquitetura e especialistas têm sido estimulados a rever seu uso com responsabilidade, no que diz respeito à preservação dos recursos florestais.

            Mas ainda há muitas construções em andamento que não se atêm ao uso racional deste recurso e empregam madeiras nobres, provindas da Amazônia, até para o uso temporário, como em andaimes e em fôrmas para concreto – demanda que chega a corresponder por cerca de 80% do uso do recurso em construções verticalizadas. 2

A informação consta no Manual da Madeira elaborado pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de São Paulo e do Comitê de Meio Ambiente, Segurança e Produtividade do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo), elaborado com a participação de diversos profissionais e instituições como o Ibama, FSC-Brasil, Esalq, Preservam, Imaflora, SBS, Abimci, CPTI e ABPM.

3 O manual relata que, durante décadas, as regiões Sul e Sudeste, se valeram do pinho-do-paraná e da peroba-rosa para atender usos ligados a forros, pisos e esquadrias, até o esgotamento dessas madeiras nas florestas nativas.

 


No intuito de preservar a existência de outras espécies foi adotado o certificado FSC (Forest Stewardship Council), como forma de contribuir para o manejo florestal no Brasil. Ramon F. Bicudo da Silva, biólogo e especialista em gestão ambiental, aponta para a relevância das obras usarem madeiras certificadas e controladas pelo FSC, como forma de contribuir para a estratégia do manejo e conservação da biodiversidade.
O selo FSC é um conjunto de normas técnicas que norteiam a forma de como explorar os recursos florestais madeireiros. Ele garante a adoção de formas adequadas de derrubar uma árvore na floresta, até os equipamentos de proteção individual, que um madeireiro deve usar durante a atividade de manejo florestal, além de restringir a atividade a áreas devidamente licenciadas pelo IBAMA.
Assim, para uma empresa ou associação que explore recursos florestais madeireiros possa ter o selo FSC, deve, necessariamente, respeitar todas as normas determinadas pelo conselho. E, ao exigir o selo do material de todos os produtos florestais madeireiros empregados na construção, os arquitetos devem conhecer sua procedência através de documentos emitidos pelos órgãos ambientais, que fazem parte do SISNAMA (Sistema Nacional do Meio Ambiente).
Bicudo lembra que, quando se fala em mercado madeireiro, aproximadamente, 75% da madeira explorada vem clandestinamente da Amazônia para ser comercializada, a partir de São Paulo, para todo o País. “É importante que todos os projetos arquitetônicos e de construção civil busquem utilizar madeiras provenientes de manejo florestal certificado, além de não explorar madeiras nobres, como peroba, mogno, itaúba ou ipê, dando prioridade para madeiras como eucalipto, por exemplo”, enfatiza.
Uma alternativa para o uso consciente do material é o reuso de materiais da construção civil, considerados como entulho e que podem ser conseguidos em locais especializados e demolições. Para isso, Bicudo recomenda que todos os arquitetos que tenham interesse em promover o desenvolvimento sustentado através de construções mais responsáveis ambientalmente procurem saber se na cidade ou região que atuam existem sistemas de gerenciamento de resíduos da construção civil, que podem oferecer material de qualidade, sem necessidade de explorar mais matéria prima virgem da natureza.

Aplicação    
O arquiteto Ricardo Rossi faz uso da madeira em fachadas, espaços externos, pisos, paredes, dentre outros. Ele conta que começou a empregar pisos de madeira nas paredes há cerca de seis anos, quando esta forma de aplicação ainda não era disseminada. Com o tempo, o processo foi assimilado pelo mercado e vários projetos começaram a apresentar a tendência. “A madeira pode ser rústica, provinda de demolição, pode ser polida ou não, tratada, dependendo do projeto”, explica o arquiteto, ressaltando que cada tipo de madeira ou de acabamento empregado atende melhor uma determinada função.

Apesar de estar ciente da importância de buscar madeiras certificadas para a criação de novos projetos arquitetônicos, como um caminho a seguir e sem volta, Rossi diz que nem sempre a opção é viável. “É preciso uma disseminação maior desses produtos pelos fornecedores, que devem promover e garantir a qualidade dos mesmos, o que ainda pouco ocorre”, diz. 
           
O mercado
           
            Mas com o aumento da consciência social sobre o tema e a crescente cobrança do consumidor por novas posturas corporativas, cada vez mais, importantes marcas vêm exigindo para sua expansão projetos arquitetônicos com certificação. Empresas como SESC , lojas do Pão de Açúcar, agências do Banco Real e a  EMBRAER - que utiliza madeira com selo verde no interior dos jatos – são alguns exemplos. E também na arquitetura promocional, aumentam o número de montadoras de estande que fazem uso de madeira certificada - comprometidas com a questão ambiental.

Karla Aharonian, gerente de produtos ecológicos da EcoLeo, primeira revenda de madeira certificada FSC da América Latina, apesar de reconhecer que, como é um mercado em desenvolvimento, em alguns casos, ainda é necessário encomendar o produto e aguardar até 30 dias, explica que houve grande crescimento na oferta de itens ecológicos. “Se algum produto não é encontrado hoje no mercado, provavelmente em alguns meses estará disponível” estima, assegurando que demanda e oferta só crescem.

A gerente da EcoLeo assegura que “a maior parte dos produtos certificados não costumam ser mais caros do que os produtos convencionais, assim como já é possível encontrar muitas variedades de madeira disponível para pronta entrega”. Para mobiliário, Kátia informa que entre as opções mais usadas estão os painéis de MDF e M.D.P, com uma vasta diversidade de cores e padrões. Outros materiais mais sofisticados, como painel de eucalipto e painel de teca também vêm ganhando a preferência de arquitetos e consumidores.
 Mas a gerente confirma que muitos especificadores ainda ficam presos às mesmas espécies, como o ipê e cumaru, e ressalta que é preciso estar aberto para a diversidade de espécies, considerando, nas escolhas, o esgotamento de algumas madeiras e a variedade dos recursos florestais. “Temos que aprender a extrair da natureza o que ela nos oferece”, explica, informando que a EcoLeo, por exemplo, trabalha com sucupira, muiracatiara, angelim, tauari vermelho, dentre mais de vintes espécies.

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            O arquiteto Siegbert Zanettini, professor aposentado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) endossa a necessidade dos arquitetos conhecerem opções de madeira que não estão ameaçadas de extinção. E defende que, para atender às questões de sustentabilidade, é preciso trabalhar com madeiras não nobres, como o eucalipto e o pinho. Outra alternativa sugerida pelo professor é buscar madeiras cultivadas e processadas especialmente para a construção, evitando o corte de árvores.

Como responsável pelo projeto do Centro de Cultura e Conscientização do Grupo Votorantim, na cidade de Valença, estado de São Paulo, Zanettini optou para a obra pela utilização exclusiva do eucalipto, solução que será replicada nos outros centros, espalhados pelo País, onde o grupo Votorantim é representado. O professor conta que sempre foi muito comum o uso de madeiras nobres como peroba, cabreúva, embuia e sucupira para amadeiramento de telhado. Para isso, eram serradas toras das árvores de mais de cinqüenta anos.
Desde 1972, Zanettini trabalha com madeiras menos nobres e cultivadas para construção e emprega a alternativa da colagem de sarrafos de pinho, para possibilitar a obtenção de vigas de quinze metros para a construção civil. Apesar da relevância da utilização desse insumo na construção, “a maioria dos arquitetos ainda conhecem muito pouco sobre madeira e não sabem como utilizar adequadamente o recurso”, admite.

 



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