“A sabedoria nipônica mostra exemplos significativos de como a arquitetura se integra à natureza e a natureza se encarrega de integrá-la. E resultou em verdadeiras obras de arte” (Issao Minami)
Japão: 100 anos
Título: A beleza do simples ou Simplesmente belo
Antes dos primeiros japoneses chegarem ao Brasil, a arquitetura nipônica já alcançava o ocidente, levando muitas influências para a arquitetura moderna e contemporânea em todo mundo.
Deyvis Drusian
Em 18 de junho de 1908 desembarcava no porto de Santos o navio Kasato Maru, que trouxe os primeiros japoneses ao Brasil. Eram 165 famílias, formadas em grande parte por camponeses de regiões pobres do Japão, que vieram a São Paulo trabalhar nas fazendas de café do oeste do estado. Nas primeiras décadas do século XX, não faltavam incentivos a essa imigração, e muitos panfletos circulavam no Japão dizendo: “Vá ao Brasil e volte rico em dez meses!”.
Poucos devem ter cumprido a profecia urgente, mas: a propaganda deu certo! Após 100 anos da chegada do Kasato Maru, o Brasil é o país que possui a maior quantidade de japoneses fora de terras nipônicas.
A exemplo de tantas outras, seduzidas pela promessa de uma fácil e rápida ascensão, em 1927, chegou ao Brasil à família Yoshio Minami, vinda no navio Burajiru Maru, trazendo os antecedentes do professor e arquiteto Issao Minami, doutor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP).
Minami, que contribuiu com o estudo e desenvolvimento da arquitetura nacional, aponta a herança de soluções como espaços vazios e a simplicidade, eliminando-se todo e qualquer rebuscamento - tão característico da influência oriental - talvez como a maior influência da imigração japonesa na linguagem estética brasileira.
Foram os espaços neutros, onde figuram o minimalismo, com pouca ou nenhuma mobília, assim como o emprego de texturas, através de diferentes materiais como madeira, pedra, terra, água, luzes, sombras e jardins contemplativos, os aspectos da cultura japonesa melhor assimilados pela arquitetura contemporânea mundial. Sendo o concreto aparente uma das mais fortes influências contemporâneas nipônicas.
“A arquitetura da civilização oriental é milenar e contempla soluções e situações de organização espacial, que traduz a essência da sabedoria de um povo, o qual enfrentou, durante séculos, situações de adversidades para se firmar nas sínteses construtivas expressas na sua arquitetura e no seu urbanismo”, explica o professor Minami. Essa sabedoria mostra exemplos significativos de como a arquitetura se integra à natureza e a natureza se encarrega de integrá-la. E resultou em verdadeiras obras de arte, construídas com madeira e técnicas particulares de montagem, com a expressão artística, presente na expressiva arquitetura tradicional, representada por templos, castelos e jardins, preservados e conservados ao longo do tempo.
Minami explica que algumas naturezas de técnicas expressivas, tanto na construção tradicional nipônica como na arquitetura colonial brasileira, eram similares, aliavam elementos construtivos portugueses e empregavam, por exemplo, taipa e madeira conjugada a outros materiais, para a apresentação de soluções simples. Outros pontos comuns na histórica arquitetônica dos dois países são as utilizações de metais, ferragens, acabamentos nos beirais, coberturas, uso de sapés e folhagens de palmitos.
A herança nipônica em São Paulo
Atualmente, de maneira geral, a arquitetura nipônica pode ser notada no Brasil mais fortemente no estado de São Paulo. Minami cita o paulista Ruy Ohtake como um dos de seus importantes representantes. “O sangue oriental, que corre nas veias desse profissional, sem dúvida, a maior expressão da arquitetura nipo-brasileira contemporânea, resultou em uma importante produção arquitetônica com herança nipônica, presente em São Paulo e também em outras cidades do país, sempre de modo inconfundível”, coloca.
Ruy Ohtake se formou em 1960 e, ao longo dos últimos 50 anos, realizou projetos, como os hotéis Unique, Renaissance, em São Paulo, e o Blue Tree, em Brasília, além do Brasília Shopping. No exterior, o arquiteto criou a embaixada brasileira em Tóquio, no Japão. Seu estilo é marcado por formas curvas e poucos ângulos retos, além de cores expressivas e design futurista.
Outros nomes mencionados por Minami como referência da influência nipo-brasileira, são o curitibano Vilanova Artigas e o capixaba Paulo Mendes da Rocha, que revelam em suas obras uma forte influência oriental. Tanto em projetos nacionais como aqueles realizados no Japão, a exemplo do Pavilhão brasileiro em Osaka, assinado por Mendes da Rocha.
Há ainda alguns exemplos de hibridismo entre arquitetura nipônica e brasileira, como os jardins japoneses esparsos, localizados em alguns parques. E os projetos híbridos, do Casarão do Chá, em Mogi das Cruzes-SP, com uma arquitetura singela de templos budistas, o conjunto KKKK, em Registro-RJ, e um conjunto de residências em madeira na Rua Fox, na Vila de Paranapiacaba, na serra do Mar, e outras criações situadas no interior de São Paulo, pontua Minami. E, apesar de sob o ponto de vista arquitetônico, o professor não considerar importante o bairro da Liberdade, ele faz referência ao Pavilhão Japonês no Parque do Ibirapuera, que está completando 50 anos, e o considera um projeto importantíssimo.
O arquiteto Naoki Otake, especialista em arquitetura nipônica é outro que confirma a capital paulista como a cidade que guarda a maior influência da arquitetura japonesa no Brasil e, para ele, ela pode ser conferida especialmente nas construções comerciais. “Raramente se vê uma encomenda de residência no estilo tradicional japonês”, ressalta. Para Otake, a estética japonesa está em evidência no mundo ocidental e, no Brasil, aparece mais comumente em restaurantes, com influências tanto da estética tradicional japonesa, como de sua cultura pop. Mas o especialista adverte quanto ao uso de elementos decorativos pseudo-japoneses, como lanternas, numa criação de espaços étnicos e sem o conhecimento de sua origem. E lembra que foi exatamente a simplicidade da arquitetura japonesa, bem menos decorativa do que a chinesa e a coreana, que nasceu a adoração de sua estética pelo ocidente”.
Em seus projetos corporativos, ele sempre procura introduzir algum aspecto da arquitetura japonesa, privilegiando materiais naturais, como madeira e pedras. Só, em casos específicos, como no desenvolvimento do Restaurante Kinoshita, Otake se permitiu conceber o projeto inteiramente dentro da estética japonesa.
As origens
Em “Influência da Arquitetura Japonesa no Ocidente”, artigo de sua autoria, o especialista aponta os primórdios da contribuição da cultura nipônica ao mundo ocidental. Ela ocorre desde a era Meiji (1868-1912). Marca o reatamento das relações diplomáticas e comerciais entre o Japão e as grandes nações ocidentais, e seduz o universo da arte, com diversos artistas europeus, como Degas, Van Gogh, Monet, Toulouse Lautrec, entre outros, que mergulharam na estética oriental. Conhecida como “japonismo”, ela influenciou a arte impressionista e a art nouveau.
A arquitetura da escola Bauhaus, surgida em 1919 na Alemanha, daria as bases para a arquitetura moderna ocidental, resultando no que passou a ser chamado de International Style. Segundo Otake, os mestres da Bauhaus, como Mies van der Rohe (1886-1969) e Franlk Lloyd Wright (1867-1959), da escola americana, beberam da mesma fonte.
Ou seja, a estética da arquitetura japonesa - cujas edificações com suas transparências através dos painéis de shoji, ambientes livres, edificações soltas do solo e jardins contemplativos -, tem sua correspondência na arquitetura moderna nas estruturas metálicas, espaços internos livres, vidro e soluções abertas para a paisagem.
Hoje, o Japão possui grandes arquitetos reconhecidos internacionalmente, como Shigeru Ban e Toyo Ito, os quais foram precedidos por um grande mestre da arquitetura moderna, Kenzo Tange. Depois da Segunda Guerra Mundial, Tokyo iniciou sua reconstrução comandada pelos novos arquitetos modernos que, além de Tange, contou com a colaboração de Junzo Sakakura e Kunio Mayekawa. A partir da década de 1960, Tange influencia uma geração de arquitetos como Kiyonori Kikutake, Kisho Kurosawa, Arata Isozaki e Fumihiko Maki, formando o grupo metabolista, que se inspirava no funcionamento vital e no entorno das edificações para o desenvolvimento de suas construções. O movimento metabolista foi crucial para a arquitetura moderna japonesa, dando embasamento às futuras gerações.
Um dos grandes nomes da arquitetura contemporânea, também influenciado pelos mestres da arquitetura moderna nipônica é Ryue Nishizawa fundador do grupo japonês SANAA, junto com Kazuyo Sejima, e um dos responsáveis pelo fascinante projeto do New Museum of Contemporary Art, em Nova Iorque (EUA). Seus trabalhos buscam a simplicidade e a leveza e, em sua própria avaliação, suas “soluções estão mais abertas e transparentes”. O arquiteto, que ganhou o mundo com uma estética própria, minimalista e, em grande parte, assimétrica, não esconde seu apreço por arquitetos brasileiros. “Oscar Niemeyer é um dos maiores arquitetos do mundo e eu também aprecio muito Lina Bo Baldi”, diz, reconhecendo o quanto se impressionou na oportunidade que teve de visitar sua casa.
Características marcantes
Apesar da arquitetura atual japonesa estar globalizada e internacionalizada, ela ainda carrega fortes aspectos da estética nipônica tradicional. “São construções que se fecham para os espaços internos, recriam a estética dos jardins de contemplação e buscam a iluminação natural de forma controlada. Mesmo, aparentemente, a arquitetura atual ser totalmente diferente da arquitetura tradicional, na essência, guardam grande relação entre si”, conclui Otake.
Referindo-se somente à arquitetura nipônica palaciana, a mais conhecida no ocidente, ele diz que as características mais marcantes estão no processo construtivo, no uso dos materiais e na relação da construção com seu entorno. Estas construções, que em via de regra são abertas aos jardins de contemplação, cuja paisagem varia em cada estação do ano, são sempre estruturadas em madeira, para garantir uma melhor absorção dos movimentos em casos de terremotos, porém muito frágeis às guerras e incêndios, explica Otake.
Já na arquitetura contemporânea japonesa, assim como a americana, o uso de estrutura metálica é preponderante, apesar de arquitetos como Tadao Ando, entre os profissionais mais respeitados do mundo, autodidata, e outros, privilegiarem a plasticidade que o concreto permite”, ressalva Otake. Quanto aos tipos de técnica, também não há grande diferença em relação as aplicadas em construções americanas e européias. As etapas construtivas são industrializadas, utilizando alta tecnologia, e só empregam mão-de-obra especializada. O processo construtivo retrata a característica de seu povo: controlado, perfeccionista e simples.