Entrevista
Sustentabilidade
Entrevista: Professora Dra. Roberta Consentino Kronka Mülfarth

Título: A ordem é: baixo impacto ambiental
Por: Deyvis Druzian Gomes
Em um momento em que o mundo debate as questões ambientais, vários profissionais de arquitetura e construção tentam se adequar a essas necessidades, que passaram a fazer parte da realidade do mercado. Se o arquiteto já tinha que administrar um elevado número de variáveis existentes em um projeto, hoje, ele tem que levar em conta outros tantos fatores ligados ao desempenho ambiental. Para ampliar esta discussão, a A+P Arquitetura + Promoção entrevistou a dra.Roberta Consentino Kronka Mülfarth, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – USP que, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), dedicou os últimos anos a estudos sobre a arquitetura de baixo impacto humano e ambiental, tema de sua tese a doutorado, defendida em 2003.
A+P Arquitetura + Promoção: O que é sustentabilidade e como esse discurso vem permeando a arquitetura ao longo do tempo?
Roberta Kronka: Essa é uma discussão antiga. Há muito tempo existem as preocupações ambientais e humanas e Thomas Malthus, que no fim do século XVIII e no começo do século XIX criou a teoria populacional, já dizia que a sociedade cresce em proporção geométrica, enquanto a produção de alimento cresce em proporção aritmética. Mais recentemente, a falta de energia e matéria prima, o “apagão”, o caos urbano, o trânsito e o excesso de calor aceleraram as discussões globais sobre práticas arquitônicas que apresentassem soluções para os vários problemas surgidos. De certa forma, mesmo sem utilizar o termo “sustentabilidade” a humanidade sempre se preocupou com estas questões.
A+P: Como a doutora avalia os projetos de arquitetura sustentável que têm sido feitos no Brasil e no exterior?
R. K: Vejo que há muita coisa equivocada, tanto no Brasil como no resto do mundo. Muitos profissionais buscam soluções prontas e listas de materiais que devem ou não ser utilizados. Na verdade, cada caso ou projeto deve ser avaliado separadamente, o que passa a ser mais complicado para os arquitetos, pois, além de avaliar as diversas variáveis requeridas pela arquitetura, o profissional deve considerar outros fatores relacionados ao desempenho ambiental. Não há soluções mágicas. Por isso que vários projetos estão empregando equipes especializadas, para avaliar com mais eficiência os determinados setores de um empreendimento.
A+P: Se não há receita, quais seriam os caminhos para se alcançar a arquitetura de baixo risco?
R. K: Como já disse, não existe uma lista pronta de materiais mais adequados, é preciso pensar no clima e nos fatores locais para assegurar o melhor desempenho do projeto arquitetônico. É preciso considerar a distância e dar preferência a materiais de fornecedores próximos da obra realizada (cerca de 200 Km), para economizar energia despendida em transporte. A durabilidade do material é outro fator-chave para o conceito baixo risco e, conforme a vida útil de uso de um material, o preço mais elevado pode até ser justificado, assim como sua proveniência mais distante. A estrutura metálica, por exemplo, dura bem mais do que a madeira, mas gasta mais energia para ser produzida [energia embutida]. É o arquiteto que irá escolher o melhor material, dependendo das suas necessidades. A avaliação de elementos tóxicos nos materiais também é uma maneira de saber qual material pode ou não ser empregado. São muitas as variáveis.
A+P: E como o mercado enxerga o discurso da sustentabilidade na arquitetura? O que prevalece, o marketing ou resultados efetivos?
R. K: É óbvio que deve haver uma preocupação no sentido de serem atendidos os critérios ambientais, na verdade, isso é uma obrigação do projetista. É tão óbvio que a arquitetura deve atender às necessidades ambientais, assim como deve suprir as questões de acessibilidade para pessoas com necessidades especiais ou com dificuldade de mobilidade. Ocorre que muitas pessoas usam isso como algo que supera as expectativas, quando deveria ser algo normal e integrado ao projeto. Criou-se uma estética da “sustentabilidade” e vários projetos estão tendo uma “cara verde”. Muitos arquitetos deixam expostos elementos que denotam sustentabilidade em suas obras, como painéis fotovoltaicos. Não gosto muito do termo “sustentabilidade” e passo isso aos meus alunos, pois me parece um modismo. Prefiro termos como “desempenho ambiental” e “arquitetura de baixo impacto ambiental” para denominar os projetos que se adequam ao clima local, materiais locais, conforto ambiental, cultura local e viabilidade econômica.
A+P: Qual sua opinião sobre as certificações ambientais internacionais para os projetos nacionais?
R. K: Não vejo isso com bons olhos, pois, geralmente, as certificações que são trazidas de fora, para serem aplicadas no Brasil, não atendem aos vários critérios importantes para o desempenho das nossas edificações, para o nosso clima e para a nossa realidade. Isso pode fazer com que os profissionais tomem decisões gratuitas sem garantir a eficácia ambiental esperada. Antes de se trazer esses certificados, é preciso atender ao desempenho de cada projeto em específico. Acho que as discussões de certificações nacionais são mais adequadas e mais coerentes com nossa realidade, mas ainda é preciso discutir normas para garantir a eficiência e o baixo impacto ambiental dos projetos de arquitetura.
A+P: E quanto as legislações nacionais com relação à arquitetura e construção sustentável, qual é a sua opinião?
R. K: Praticamente não há nenhuma legislação nesse sentido que se aplique à arquitetura. Encontramos, sim, propostas relacionadas ao desempenho da edificação, como a questão de consumo energético, por exemplo. Foi aprovada pelo Comitê Gestor de Indicadores e Níveis de Eficiência Energética - CGIEE, em setembro de 2007, a Regulamentação para Etiquetagem Voluntária de Nível de Eficiência Energética de Edifícios Comerciais e de Serviços e Públicos. Ela apresenta os requisitos técnicos necessários para a classificação do nível de eficiência energética de edifícios comerciais, de serviços e públicos, visando a etiquetagem voluntária, com foco na eficiência energética para tais edificações. Este documento foi elaborado pelo LabEEE – Laboratório de Eficiência Energética nas Edificações, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A Idéia é que, somente no inicio, a etiquetagem seja voluntária, tornado-a obrigatória em pouco tempo. Eu diria que a “sustentabilidade” acabou sendo uma bandeira para vários aspectos da construção que estavam esquecidos. O desempenho da edificação é o principal deles.
A+P: E quanto a seu trabalho para doutorado, fale sobre ele e quais os avanços mais expressivos desde então?
R. K.: Na época em que estava desenvolvendo minha tese, em 2001, falava-se muito em sustentabilidade em todo o mundo, mas as pessoas e profissionais não tinham muito claro o que esse termo significava, e, na verdade, essa é uma questão um pouco confusa até hoje. O que é importante ressaltar é que, para que exista a arquitetura de baixo impacto humano e ambiental, é preciso que as decisões tomadas no projeto atendam às variáveis ambientais, econômicas e sociais. Nenhum dos elementos desse tripé pode ser prejudicado. Por exemplo, não se pode pensar em atender às necessidades econômicas de um projeto se isso prejudica a comunidade local, assim como não se pode atender apenas às questões ambientais de uma obra e deixar de lado os aspectos econômicos. Em meu doutorado busquei discutir esses conceitos e alguns sistemas de avaliações dos impactos de uma edificação, levando em conta todo o seu ciclo de vida, desde o projeto até a demolição. Hoje em dia, existem vários outros sistemas de avaliações de edificações e há outros estudos mais atuais nesse sentido.
A+P: O que a doutora está pesquisando atualmente?
R. K: Atualmente, realizo uma pesquisa dentro de Universidade de São Paulo, no Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética (Labaut). O que fazemos é uma ampla pesquisa do desenho urbano e sustentabilidade. Não é possível dizer que um edifício é sustentável sem antes analisar o contexto urbano ao qual ele está inserido. No ambiente urbano, para a concepção de um edifício mais sustentável , a inserção do empreendimento determina tudo, e precede as decisões sobre a sustentabilidade do edifício propriamente dito. Por exemplo, um edifício comercial de grande porte que se diz sustentável com grande fluxo de pessoas, em que não há transporte de massa e tem como única alternativa o usuário ir de carro e ficar preso num congestionamento de 40 minutos para sair da garagem não é sustentável. Um edifício não é sustentável se o meio urbano em que está inserido não o é. Para isso, é preciso analisar fatores como: possibilidade de geração de energia; acessibilidade, tanto no entorno como nas unidades; ventilação; acesso à luz natural e iluminação nas unidades; permeabilidade do solo; dentre outros tantos fatores importantes.
Em lugar do termo ‘edifício sustentável’, é mais correto se dizer ‘edifício mais sustentável’, no sentido de ser mais sustentável do que o convencional, mais sustentável do que habitualmente se faz, já que sustentabilidade é um processo. A expressão ‘edifício sustentável’ pode passar uma idéia de auto-suficiência, que não é estritamente necessária. Do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, a meta é a eficiência no uso dos recursos naturais como água, energia e matéria-prima, e não, necessariamente, a autonomia, principalmente quando se tratam de áreas urbanizadas, com redes de água, energia, esgoto e coleta de resíduos sólidos passando pela sua porta.
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