Linha Fina: Enquanto o mundo enfrenta um acelerado desenvolvimento econômico, a escassez de recursos energéticos é, cada vez mais, pauta obrigatória a arquitetos e profissionais da área de construção. Afinal, o gasto de energia pelo setor de construção é apontado como o responsável por 40% do consumo energético no planeta.
Crédito: Deyvis Drusian
O aumento do consumo nacional de energia em 2007 teve expansão de 5,5% ante 2006, apontando o maior crescimento do mercado desde o racionamento de 2001, informa a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia. Entre os motivos está o aquecimento da economia, e o vilão é o setor de construção, que respondeu por 40% da energia consumida e por 35% das emissões de carbono em todo o mundo, segundo o relatório de Eficiência Energética em Edifícios.
Não é à toa que crescem as discussões e pesquisas nacionais para a definição de uma nova certificação brasileira: a “Regulamentação para Etiquetagem Voluntária de Nível de Eficiência Energética de Edifícios Comerciais, de Serviços e Públicos”, desenvolvida entre 2004 e 2006 pelo LabEEE do Departamento de Engenharia Civil da UFSC. O projeto, firmado com a Eletrobrás, no âmbito do programa Procel Edifica, foi aprovado, em sua versão final, em fevereiro de 2007. Mas, a regulamentação terá caráter voluntário até 2012, quando passará a ser norma obrigatória para todos os edifícios.
Segundo o professor Roberto Lamberts, um dos responsáveis pelo projeto no LabEEE, a transição terá que ser acompanhada com treinamento de pessoal e capacitação dos laboratórios para analise e emissão da etiqueta. “Tudo depende da resposta do mercado, mas, pelo que temos visto, deve ser boa e liderada pelos grandes empreendimentos”, diz. Ele aposta que a regulamentação será uma aliada do projetista, e reconhece que ainda muitos profissionais da área não avaliam os impactos de seus projetos e, por tanto, projetam edifícios que não são eficientes.
Para se destacar no mercado, importantes escritórios têm investido na qualificação de seus profissionais e processos. Vencedor do V Grande Prêmio de Arquitetura Corporativa 2007 e do Prêmio Espaço D' Ambientes Comerciais 2007, entre outros, o arquiteto e empresário Dante Della Manna conta que seu escritório patrocina a qualificação de profissionais para adquirir a certificação do Leed, nos Estados Unidos. Para ele, investir na formação dos colaboradores é o caminho para se destacar no mercado e tornar-se apto a realizar projetos sustentáveis e certificados.
Regulamentação: prós e contras
Semelhante ao adotado para os eletrodomésticos, seguindo um padrão internacional de avaliação, o selo Procel Edifica é uma ferramenta que visa classificar edifícios comerciais, de serviços e públicos quanto a sua eficiência energética, levando em conta três requisitos principais: o desempenho térmico da envoltória; a eficiência e potência instalada do sistema de iluminação; e a eficiência do sistema de condicionamento do ar.
De acordo com Leonardo Marques Monteiro, doutor em tecnologia da arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e pesquisador do Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética (LABAUT) da mesma faculdade, o fato da adoção da regulamentação ser voluntária é interessante para evitar o risco de se estipular obrigatoriedades sem que a sociedade as tenha discutido com o devido cuidado. “Há consenso de que devemos buscar a eficiência energética, mas ainda não como isso possa ser implementado de forma normativa. Apesar do apelo de uma etiquetagem agregar valor à questão da eficiência energética, é preciso prudência para não se esgotar a questão na adoção do selo. Caso contrário, abandona-se o ponto central, que é buscar soluções realmente mais eficientes, e caminha-se rumo à satisfação de normas, apenas para a obtenção da certificação” adverte Monteiro.
Para José Eduardo Tibiriçá, vice-presidente da Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura (AsBEA), e arquiteto titular do Tibiriçá Arquitetos, é preciso ficar atento a importação de conceitos prontos, sob o risco de relevar aspectos importantes de nossas condições urbanas, a exemplo de projetos residenciais com estilo arquitetônico importado, sem considerar as diferenças climáticas. “Antes de tudo, devemos nos voltar para nossa cultura, nossas características, nossas necessidades”, lembra, defendendo que a regulamentação deve ser fruto da inteligência e reflexão nacional.
A eficiência nasce no projeto
Só não há discussão quanto à importância crucial do trabalho do arquiteto para a sociedade encontrar uma maneira da usar racionalmente a energia. Quem diz é o professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o arquiteto Sílvio Stefanini Sant’na. Para ele é de responsabilidade do profissional de arquitetura manter e melhorar os benefícios e a qualidade de vida com menores custos e menor impacto ambiental as construções.
E Marcelo Pacheco, arquiteto e diretor técnico da Casa do Futuro, focada em projetos de edificações inteligentes e sustentáveis, lembra que “no passado, era muito comum, a construção de prédios totalmente envidraçados, sem qualquer tipo de proteção solar, o que implicava em um alto consumo do sistema de refrigeração”, diz. Em sua opinião a primeira preocupação deve ser a orientação com relação ao sol, e destaca o cuidado especial que o projeto deve ter com a fachada norte. Assim como avaliar os melhores sistemas de proteção para garantir uma insolação severa. Pacheco sugere dimensionar bem as janelas para permitir a máxima iluminação natural e, ao mesmo tempo, bloquear a entrada direta do sol.
Experiências bem sucedidas
Pautado pela teoria de que uma edificação precisa ser tratada como uma máquina térmica, o engenheiro Wilson Teixeira, consultor de performance energética em edificações, considera fundamental não super dimensionar o sistema de ar condicionado, a fim de combater cargas térmicas desnecessárias. Bem como evitar perdas pelo envelope das edificações e excessivas radiações solares por janelas e clarabóias. Ele cita de exemplo o projeto do hall do shopping New York City Center, localizado no Rio de Janeiro, que abriu mão do sistema de ar-condicionado e buscou a climatização natural.
Na alternativa que emprega os ventos, segundo o arquiteto Stefanini Sant’na, a soma da ventilação cruzada com uma boa orientação quanto ao sol é capaz de proporcionar climatização interna eficiente e conforto ao ambiente, evitando o consumo de energia elétrica e a liberação de CO2. No combate ao desperdício também é possível captar energia solar através de painéis solares, para aquecer água para o banho. Stefanini Sant’na ainda aponta o emprego de células fotovoltaicas, opção que pode gerar energia elétrica para diversos fins.
Já o engenheiro e consultor Oswaldo de Siqueira Bueno, da Air Conditioning, destaca a opção do projeto do Raposo Shopping, em São Paulo, por empregar um sistema de resfriamento evaporativo, onde o ar quente passa por “chuveirinhos” e o calor é dissipado na evaporação da água. O processo ocorre como em um filtro de barro, em que o calor incide sobre a parede porosa e úmida e acaba sendo utilizado para evaporar a água, não atingindo o interior do recipiente. Segundo Bueno esta solução não é adequada a climas úmidos, mas, em locais em que o verão é quente e seco, a alternativa é totalmente válida.
Uma saída que pode ser adotada não importa o clima é o uso de uma boa carpintaria para as janelas e portas, sugerida por José Baldasano, professor da Universidade Politécnica da Catalunha, na Espanha. Para ele, enquanto nas regiões quentes, pode-se otimizar o uso dos sistemas de climatização e ar-condicionado e, em locais frios, o ganho pode vir da diminuição do gasto com sistemas de aquecimento. O uso de PVC é outra possibilidade sugerida pelo professor para ajudar a economizar o uso de energia. De fato, o material possui baixa condutividade térmica e permeabilidade reduzida com relação à entrada de ar, e garante eficiência energética na etapa de uso, já que as esquadrias de PVC consomem menos energia e liberam menos CO2 em todo processo de fabricação.
Não precisa ser mais caro
E se a pauta de consumo de energia girar em torno do investimento, “fazer um prédio mais eficiente nem sempre custa mais caro e, em alguns casos, pode custar mais barato”, afirma com autoridade Roberto Lamberts, um dos responsáveis pelo selo Procel Edifica. “O consumo energético de um edifício varia de acordo com a sua volumetria, fator de forma, carga interna e padrões de uso e, um projeto para edifícios de alto desempenho, pode garantir um consumo energético de 40% a 50% menor”, diz.
No Encontro Internacional de Sustentabilidade na Construção, realizado pelo CTE – Centro de Tecnologia de Edificações, no mês de junho, em São Paulo, foi posto que os custos de uma construção sustentável são maiores que os de uma construção convencional apenas de 1% e 6%, conforme o edifício, e que o maior impacto dos custos das edificações ocorre na fase de uso e operação do empreendimento, considerando sua vida útil de 50 anos. Para edifícios comerciais, em média, 80% dos custos acontecem nesta fase, sendo que apenas 20% ocorrem na fase de concepção, projeto e obra.
O arquiteto Marcelo Pacheco explica que, normalmente, uma edificação energeticamente eficiente tem consumo 30% inferior a uma edificação semelhante. Sendo que o tempo de retorno é diretamente proporcional ao volume de consumo e pode ser percebido entre 24 e 48 meses após a implementação da obra.
Mas, seu colega, Stefanini Sant’na alerta que o retorno de um projeto eficiente não pode ser medido sob o prisma da economia e dos resultados financeiros. “Esta é a grande transformação que a sociedade precisa entender com urgência”, conclui.
Box ( Se quiser pode tirar)
A boa experiência australiana
O edifício construído em 2006, na cidade de Melbourne, Austrália, consome apenas 35kWh/m2/ano, apesar de abrigar dez andares de escritórios. Ele é um exemplo de projeto arquitetônico que visa o consumo “zero de energia”. A Casa do Conselho 2 (Council House2 – CH2), possui o piso destinado a lojas e estacionamento subterrâneo. O conceito do CH2 baseou-se em vários estudos ecológicos mundiais, utilizando o ciclo natural de energia solar de 24 horas, luz natural, ar e água da chuva para energia, calor, arrefecimento e abastecimento de água.
O edifício possui diversas frentes, cada uma com uma função específica. As dez condutas escuras da fachada norte absorvem o calor do sol. Há um sistema que conduz todo o ar quente para cima, expelindo-o do edifício. Ao mesmo tempo, a fachada sul tem condutores que absorvem o ar fresco do telhado, espalhando-o para dentro do edifício. As persianas de madeira reciclada, na frente oeste, movimentam-se de acordo com a posição do sol e também são abastecidas por células fotovoltaicas. Já o telhado possui painéis solares para o aquecimento da água. O prédio ainda possui telhado verde para a produção de oxigênio e para diminuir a temperatura local, além de turbinas de vento que purificam o ar ao longo da noite e produzem eletricidade durante o dia. O esperado é que o CH2 cubra o investimento em sustentabilidade até 2016.
Chapéu: Eficiência energética
Oi Walter, minha sugestão é manter o padrão da diagramação da primeira parte, mas fazer uma abertura para a segunda parte. O que acha?
Título: Novidades eficientes
Linha-fina: A indústria não pára em busca de alternativas mais econômicas e menos agressivas ao meio ambiente. Confira alguns desses avanços.
Subtítulo: Isolantes térmicos e vidro
Entre as alternativas para garantir conforto e menor consumo do ar-condicionado estão os isolantes térmicos. Carlos Carneiro, representante da ISover - Sait-Gobain explica que o uso de isolante nas coberturas é sempre necessário, independente do tipo de construção. E no caso de edifícios mais leves, também chamado de construção a seco e construção metálica, a função dos isolantes passa a ser fundamental para o conforto térmico e para a eficiência energética. “O importante é o profissional estar apto a avaliar a condutividade térmica dos materiais eleitos para o projeto, e assegurar-se das certificações de qualidade dos mesmos. Segundo Renata Bagnolesi, representante da ISOVER - Sait-Gobain, garante que, de uma forma geral, os arquitetos e engenheiros têm ampliado seus conhecimentos sobre os produtos antes de especificarem.
Um estudo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Lãs Isolantes (Abraliso) comparou dois edifícios com características similares e apontou que a obra com isolante nas fachadas e no teto apresentou uma redução de 4% da energia global (total) consumida pelo edifício. Já na comparação com um galpão comercial, edificação mais horizontal, com grande área de cobertura, existe ganhos de mais de 50% na redução do uso de ar-condicionado.
O vidro também evoluiu para atender as novas demandas. Remy Drufrayer, coordenador de mercado da Cebrace, do grupo Saint-Gobain, que orienta os projetistas na escolha, cita a opção de controle solar, que permite interferir na entrada de energia solar no ambiente, reduzindo o consumo de energia pelo sistema de ar-condicionado. “Há produtos que reduzem de 50 % até cerca de 80% a entrada de radiação. E, em algumas situações, por contribuir para a redução do consumo energético, o vidro pode ajudar a garantir a obtenção da certificação Leed”, completa. Drufrayer também cita o vidro bioclin, auto-limpante, que utiliza a radiação solar e a água da chuva para a limpeza, eliminando custos de limpeza e dispensando os detergentes, que muitas vezes não são biodegradáveis.
Ar condicionado No intuito de garantir melhores condutas para preservar o meio ambiente, os produtos manufaturados, há tempos, são monitorados em todos os países, exigindo índices cada vez menor do consumo de energia elétrica, assim como o uso de gases ecológicos e componentes plásticos e metálicos recicláveis. Quem acaba de lançar no Brasil uma nova solução de ar condicionados, incorporando todos esses conceitos é a Fujitsu General, que trouxe ao mercado o Inverter Residencial. Alem das diversas inovações tecnológicas, do compressor e da placa eletrônica da condensadora, que permite redução do consumo de energia elétrica em até 40%, comparando com as opções convencionais, o novo modelo faz uso do gás ecológico R410A, que não agride o meio ambiente. Segundo Luis Mitsuaki, gerente comercial da empresa, o sistema permite atingir o nível de conforto ambiental em menos tempo, mantendo-o estável e sem variação da temperatura. Alternativas do gás
O gás também é uma opção a ser avaliada pelo arquiteto. De acordo com Alexandre Breda, gerente de vendas do Grande Comércio da Comgás, a opção de utilizar gás natural na geração de ponta, por meio de grupos moto-geradores, pode garantir uma economia de até 70% no custo operacional. Já com o uso do sistema de co-geração, em que são realizadas a geração simultânea de energia elétrica e água gelada para o ar condicionado, pode-se economizar até 30% no custo operacional. O gás natural também pode ser utilizado para a produção de água gelada em chillers por absorção em centrais de água gelada, comumente utilizada em shopping centers e também nos equipamentos tipo VRF, podendo ocasionar uma economia de aproximadamente 10% do custo.
Para Breda, muitas vezes são interessantes soluções mistas, combinando uma parte elétrica com uma parte a gás natural, possibilitando a extração máxima de eficiência dos equipamentos e propiciando ao cliente o melhor custo operacional. Ele explica que as edificações contribuem com grande volume da energia consumida no País, sendo que cerca de 40% dessa energia é destinada para sistemas de ar condicionado. “A utilização do gás natural em equipamentos de ar condicionado contribui para o deslocamento da carga elétrica, postergando novos investimentos em geração de energia elétrica e criação de linhas de transmissão”, argumenta.
O vilão do desperdício
Mas é a iluminação a grande vilã do desperdício energético, sendo o segmento que mais consome recursos em todo o mundo (cerca de 20%). Para Lamaro Parreira, gerente de marketing e vendas de Iluminação da Philips do Brasil, a economia de energia envolve tanto um bom projeto de iluminação quanto a utilização de produtos que promovem eficiência energética. Ele defende que a economia de energia depende do produto adotado, lembrando que uma lâmpada fluorescente compacta é 70% mais econômica que uma lâmpada incandescente. Já um Lighting Emiter Diode (LED) é até 80% mais econômico que o produto incandescente, e dura até 50 vezes mais. Por se tratar de chips semicondutores, os LED´s possuem tamanho reduzido e a possibilidade de programação, podendo ser empregados para diversos fins, permitindo, por exemplo, a troca dinâmica de cores.
Para reduzir a necessidade de iluminação artificial durante o dia, a iluminação zenital é muito importante e útil. O problema é que os profissionais têm usado áreas muito grandes, quando, geralmente, 1% ou 2% da área de cobertura é suficiente para dar uma boa clareza ao ambiente. “Um teto todo revestido em vidro pode gerar luz demais e ocasionar ofuscamento, além de criar uma estufa desagradável, em locais de clima quente”, adverte.
Mais tecnologia
A adoção de sistemas de automação é outra opção que permite um controle mais efetivo sobre os sistemas elétricos, definindo os níveis de iluminação ideais para cada situação, evitando o desperdício. Segundo o arquiteto Marcelo Pacheco, especialista em automação de edificações, a automação predial viabiliza o estabelecimento de lógicas de controle e implementação de equações matemáticas para otimização da operação de equipamentos de ar-condicionado, por exemplo. Os cálculos e equações possibilitam criar rotinas de operação com base em programação horária, variações climáticas e demandas, estabelecendo valores ótimos e objetivos para evitar a incidência de erros humanos.
Avanço que também atende os elevadores. Entre as novas soluções do segmento para a redução do consumo, Paulo Henrique Stefan, vice-presidente da área comercial da Thyssen Krupp Elevadores, informa que há novas opções com variação de voltagem, que consomem de 20% a 30 % menos se comparado aos modelos convencionais. “Uma novidade do setor, que atende elevadores com velocidade acima de três metros por segundo, são os modelos com sistemas regenerativos de energia - quando o elevador parte consome energia, mas, quando desacelera, devolve energia – que antes era queimada. Isso proporciona um adicional a mais de energia nos empreendimentos. E cita que a alternativa ajudou a Gafisa-Eldorado a receber a certificação Leed, sistema que também está em processo de instalação no Ventura Tower, em São Paulo.
Outra medida que vem sendo feita, apontada por Stefan, é a substituição gradativa do sistema de engrenagens por máquinas sem engrenagem, que tem menos perda de rendimento e melhor eficiência energética, em até 70 %.