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Câmara dos Arquitetos - Palavra do Profissional

Um novo conceito de calçada para São Paulo

Por Benedito Abbud
arquiteto paisagista

Os habitantes de grandes centros urbanos, como São Paulo, estão atentos à questão da segurança nas ruas. Devido a essa crescente preocupação, é provável que existam cada vez mais empreendimentos residenciais em terrenos maiores, com várias torres e amplo lazer (praticamente um clube no térreo). Esses lançamentos imobiliários geram grandes perímetros de muros, que não oferecem muitos acessos e tornam-se “zonas mortas” da cidade. Para revitalização dos passeios públicos, principalmente esses que ladeiam grandes extensões de muros, tenho feito várias propostas que envolvem desde o plantio de árvores, a iluminação adequada, o mobiliário urbano convidativo, a acessibilidade, a comunicação visual, a paginação de piso até ouso de fiação subterrânea, entre outras soluções. A idéia é que o cidadão possa resgatar o hábito de andar na calçada com conforto, praticidade e segurança. Onde há vida, há menos problemas com segurança.  A Calçada Viva, projeto de destaque durante a Casa Cor 2006, marcou o surgimento de um novo conceito de passeio público para São Paulo. Atualmente venho desenvolvendo e aperfeiçoando trabalhos mais amplos que envolvem desde calçadas arborizadas até o planejamento de verdadeiros bairros como a reurbanização do Jardim Sul, batizado como Arquitetura de Morar.
O ponto de partida é, sem dúvida, entender a aplicar o conceito da Calçada Viva, baseado na integração de seis itens: calçadas verdes, ecológicas, acessíveis, inteligentes, mobiliadas e saudáveis.

CALÇADAS ECOLÓGICAS
Ser ecologicamente correto não significa única e exclusivamente cuidar da área verde do local. Outras ações são necessárias, tais como o plantio de espécies frutíferas para atração de pássaros e o uso de um piso especialmente desenvolvido com material drenante. Esse piso permite a drenagem das águas pluviais e alimenta o lençol freático.  A cidade de São Paulo possui, segundo a Secretaria da Coordenação das Subpre-feituras, um total de 72 milhões de metros quadrados de calçadas. Se o piso drenante for adotado, mesmo em parte dessa área total, o problema recorrente das enchentes de São Paulo será amplamente minimizado.

CALÇADAS VERDES
Plantar árvores, arbustos, forração vertical (hera e unha de gato, por exemplo), e grama de forma organizada enriquecem a paisagem urbana e traz benefícios para sociedade. A copa das grandes árvores mini-miza a massa construída e descontínua da cidade de São Paulo e propicia sombreamento (ambientes mais frescos). Os arbustos e trepadeiras plantados em muros, viadutos e arrimos geram uma maior sensação de verde. O conjunto melhora a qualidade ambiental, retendo o calor durante o dia e amortecendo o calor durante a noite. As calçadas verdes contribuem para uma variação de temperatura menor e consequentemente uma população mais saudável.

CALÇADAS ACESSÍVEIS 
A calçada acessível da Casa Cor 2006 foi desenvolvida em parceira com a Secretaria Especial da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (SEPED) e atendeu aos padrões internacionais de acessibilidade e à norma NBR9050 elaborada pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Adotar soluções como o piso tátil de alerta e direcional; e a rampa de acesso é fundamental para permitir entrada, permanência e saída com segurança e autonomia a todos.

CALÇADAS INTELIGENTES
Atualmente, talvez por não existir um planejamento em conjunto, as concessionári-as (companhias fornecedoras de energia, água, telefone, etc.) quebram constantemente o piso das calçadas, resultando em prejuízos estéticos e obstáculos para o passeio (buracos, emendas, caimentos inapropriados). A utilização das calçadas inteligentes, ou técnicas, funcionando como uma galeria no subsolo permite que as fiações da rede elétrica, telefônica, de TV, fibras óticas, rede de água e esgoto sejam todas embutidas, diminuindo a poluição visual da cidade. Além desse benefício para a paisagem urbana, a calçada inteligente proporciona fácil acesso para manutenção das redes sem quebrar ou “remendar” o piso, uma vez que as peças drenantes podem ser retiradas uma a uma e recolocadas com facilidade, sem necessidade de mão de obra especializada.
O processo de intervenções no subsolo torna-se mais simples, rápido e seguro, além de proporcionar diminuição da poluição sonora aos transeuntes.

CALÇADAS MOBILIADAS
O mobiliário urbano é fundamental para convidar a população ao convívio e ao passeio nas calçadas. A iluminação é estruturada de forma estratégica para ressaltar pontos focais e belos caminhos ao longo do passeio, além de sinalizar e proporcionar segurança no período noturno. Equipamentos como bancos, ponto de ônibus e totem telefônico podem ser apresentados com linguagem comum e, desta forma, trazer harmonia ao conjunto. 

CALÇADAS SAUDÁVEIS
Dentro da proposta de um novo conceito para o passeio público paulistano não poderiam faltar opções para a prática de esportes e cuidado com o corpo. Entre as soluções possíveis podemos destacar pista de caminhada com marcação de distância e aparelhos para ginástica e alongamento.
É importante destacar que a largura da cal-çada é um fator fundamental, pois, dependendo de seu tamanho pode ser, ou não, convidativa e agradável ao convívio. Quanto maior for a largura melhor será para a pro-teção dos pedestres e para a existência de vegetação, favorecendo a paisagem urbana e o conforto visual. Calçadas com largura inferior a 2m não permitem vegetação e obrigam o adensamento de postes de iluminação e de comunicação visual, atrapalhando o caminho de quem passa. A largura mínima ideal de calçada é de 2,5 m.
Dentro do universo de uma proposta de revitalização urbana mais ampla, com soluções como as citadas acima, uma alternati-va simples e viável economicamente são os muros e paredões verdes, revestidos com vegetação como as trepadeiras. Essa alternativa propicia uma maior sensação de verde nas ruas da cidade, também contribui para uma variação menor de temperatura e consequentemente uma paisagem mais agradável; além de evitar o problema das pichações.  As trepadeiras se adaptam muito bem à cidade contemporânea, onde as construções em planos verticais e ensolarados oferecem ambientes ideais ao crescimento dessas espécies. Nos dias de hoje, o plano horizontal é ocupado, praticamente por inteiro, com pavimentação para uso e circulação de pessoas. Há, portanto, pouco espaço para o plantio de espécies de maior porte como, por exemplo, árvores. Por outro lado, espécies como a unha de gato e a falsa vinha não precisam de mais de 15 cm de largura de “canteiro” ao longo da divisa para se desenvolverem e revestirem com verde os muros, viadutos e arrimos dos centros urbanos.

 

 

 



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