A hora e a vez da arquitetura
Por: Mari Marinaro
À frente da única entidade que representa os escritórios
de arquitetura brasileiros- a Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura (AsBea) - o arquiteto Ronaldo Rezende, fala em nome de cerca de 300 dos mais atuantes escritórios do País e uma centena de fornecedoras de serviço. Em entrevista a A + P Arquitetura + Promoção, Rezende aponta os rumos da área, sua participação estratégica para a sustentabilidade do planeta, e também sobre as mudanças exigidas dos escritórios de arquitetura, diante das novas demandas e em tempos de mercado aquecido.
A+P Arquitetura+Promoção: A AsBea acaba de realizar uma assembléia geral na Bahia, quais foram os temas mais relevantes do encontro?
Ronaldo Rezende: Em nossa última Assembléia Geral, tratamos de apurar o que nossos associados esperam da entidade diante da demanda de projetos que temos hoje. Também consideramos o fato do Brasil ter recebido classificação “Investment Grade”, anunciado durante o encontro, que traça um novo cenário para as empresas de arquitetura. Uma conquista que deverá fomentar ainda mais a demanda e que possibilitará e exigirá dos escritórios, um planejamento capaz de fazer frente aos projetos, que já estamos tendo de responder e que certamente se incrementarão ainda mais, logo adiante. Investimentos em treinamento e qualificação profissional, certificação, avanço tecnológico e principalmente gestão das empresas, deverão ser temas corriqueiros daqui para frente. Quem não estiver em sintonia com estas questões, acabará ficando fora do mercado. Não há mais espaço para amadorismo neste novo ambiente e a AsBea está, e estará cada vez mais, trabalhando nesta direção. Ou seja, preparando nossas empresas associadas a obterem desempenho à altura das exigências do mercado.
Quais as principais conquistas da entidade nesses 35 anos?
Ter alcançado sua atual caracterização de entidade que defende os interesses específicos das empresas de arquitetura é uma delas. Também o fato de ter contribuído continuamente para a valorização e importância da arquitetura no desenvolvimento urbano e para a melhoria qualitativa e evolução da
construção civil no País. Outra conquista importante é que hoje o corpo associativo da AsBEA conta com mais de 300 escritórios de arquitetura em todo o Brasil e mais de uma centena de empresas fornecedoras de serviços. E ainda contamos com regionais no Rio de Janeiro, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná, além de São Paulo. Como o Sr. avalia a produção arquitetônica no Brasil?
Há décadas, o arquiteto brasileiro tem demonstrado o grau de qualidade de sua arquitetura. O fato de nomes como os de Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha já terem ganhado o prêmio Pritzker de arquitetura demonstra isso. Além disso, temos outros tantos profissionais pelo País produzindo arquitetura da melhor espécie. Toda vez que recebemos as revistas especializadas
do setor vemos projetos em sintonia com o que ocorre mundo afora. Mesmo sem possuirmos os mesmos recursos financeiros de países desenvolvidos estamos evoluindo bastante. Porém, a produção arquitetônica acelerada, imposta pelo mercado imobiliário, nos preocupa muito, pois questões como sustentabilidade do ambiente construído estão longe de serem atendidas pelos projetos que estão saindo do papel. Mas, com o mercado aquecido, temos a possibilidade ímpar de propor projetos mais modernos, sustentáveis e em sintonia as necessidades impostas pelo mundo contemporâneo. Esse é nosso desafio maior.
E quais são os principais pontos a evoluir?
O volume de obras que estamos tendo obriga os profissionais de arquitetura a um aprofundamento maior em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias. A industrialização acelerada da construção civil é uma realidade para qual temos que nos ater. O que teremos que enfrentar será um ambiente carente de mão-de-obra e insumos, diante da demanda crescente de obras por todo o País. Estruturas metálicas, concretos de alta resistência, pré-fabricados e tantas outras questões, passarão a fazer parte de nosso dia-a-dia de projetos e para isso teremos que nos preparar. Estamos vivendo um momento de crescimento que nunca havíamos enfrentado. Este é nosso grande desafio e temos convicção de que estamos preparados para ele.
E de onde devem vir as principais demandas?
Um mercado ainda propício e com boas perspectivas vem da estabilidade econômica e do aumento de renda de classes como C e D. Mas, além disso, a classificação do Brasil no âmbito
econômico mundial, com o Investment Grade, abre novas e importantíssimas oportunidades ao setor, e deve permitir que as empresas possam se planejar com uma perspectiva de mercado mais segura para esses próximos anos, o que ainda não havíamos experimentado, o que é muito bom para todos.
Então o aquecimento da construção civil no País deverá abrir espaço para um novo posicionamento dos arquitetos perante o mercado?
Sim, as tecnologias construtivas, redução do ciclo de produção de obras, garantia de custos e de qualidade, além de outros aspectos do projeto que podem minimizar os riscos técnicos dos empreendimentos em um mercado aquecido, são fatores que afetam diretamente o posicionamento do escritório de arquitetura. Esta nova realidade traz desafios e gera novas oportunidades. O maior diferencial estratégico dos escritórios atualmente é garantir uma gestão profissionalizada e quadros profissionais qualificados para atender a demanda.
Como o Sr. avalia o comprometimento dos arquitetos brasileiros com a sustentabilidade?
Hoje, o tema sustentabilidade permeia a atividade de arquitetos e urbanistas no ambiente construído e no crescimento organizado dos centros urbanos. É uma preocupação constante, o arquiteto deve incorporar este conceito em seus projetos, não somente por respeito ao meio ambiente, mas também por respeito à sociedade. A prática da sustentabilidade tem como ponto fundamental a integração das intenções do projeto e a gestão e manutenção das operações no ambiente construído. Na AsBEA criamos em 2006 o Grupo de
Trabalho de Sustentabilidade, com vistas a instrumentalizar os escritórios, empreender ações e dispor de ferramentas para a boa realização dos projetos e de construções com o viés da sustentabilidade. Inclusive lançamos um trabalho que reúne conceitos básicos que devem nortear a elaboração de um projeto de arquitetura na busca de melhores condições de sustentabilidade, e hoje caminhamos para a confecção e lançamento de dois manuais específicos sobre o tema. Estes grupos se desenvolvem em todas as nossas regionais espalhadas pelo País e são hoje formadores de conteúdo importantíssimo para a entidade e, por conseqüência, para todo o mercado.
Até que ponto o projeto arquitetônico pode garantir o desenvolvimento sustentável?
Cada projeto é único, e devemos considerar suas diferentes variáveis. É possível termos, com baixo custo, um melhor desempenho do ambiente construído levando em consideração pontos como: eficiência energética, uso adequado da água, materiais certificados e renováveis, qualidade dos ambientes internos e externos da obra. Porém, o projeto arquitetônico é formado por uma série de variáveis, o cliente é, ao mesmo tempo contratante, usuário e integrante da comunidade, do espaço físico. Somente o equilíbrio de todos estes fatores com eficiência atende a demanda da sociedade pela sustentabilidade
dos projetos.
Qual é o principal desafio da AsBea e de seus associados?
A segurança jurídica nos contratos de financiamento para a construção civil associada, entre outras questões, ao ingresso das grandes construtoras no mercado de capitais, modificou radicalmente o mercado de arquitetura no País. Isto está exigindo das empresas de projeto um grau elevadíssimo de capacitação e de profissionalização da atividade. É justamente este o desafio da AsBea e seus associados, o de posicionar o profissional de arquitetura, urbanismo e paisagismo como altamente qualificados para absorver, com a devida competência, esta demanda de projetos.
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